Estive pensando sobre como aprendi a escrever. Não lembro o método utilizado comigo, mas foi, aparentemente, inexpressivo. Não surtia efeito, meus colegas avançavam e eu estava empacado.
Eu fui um dos últimos da classe a conseguir pegar um parágrafo e compreender o sentido daqueles desenhos diminutos, cheios de curvas loucas pra baixo, pra cima, dobrando, esquerda, direita. Agrupados, os desenhos formavam as palavras e as palavras agrupadas formavam um embolado ainda mais misterioso chamado por um nome feio: Parágrafo. O meu terror era o parágrafo. Eu conseguia ler palavras, com muita dificuldade podia ler até frases, bem devagarinho…. mas parágrafos. Parágrafos não. Os parágrafos envolviam mais do que as idéias simples de uma frase, envolviam conjuntos de idéias que me levavam a outro bicho papão: A interpretação do texto.
Chegou então o dia da prova final. Eu não tirei nota suficiente pela prova oficial da escola, mas a diretora abriu uma exceção para mim: Eu poderia fazer uma última prova, um teste final de alfabetização. Teria que ler um parágrafo inteiro… NA SALA DA DIRETORA.
Fui, tremendo. Atravessei solitário o chão lustrado da escola São Francisco. Minha tia Vera ficou na sala cruzando os dedos por mim. Ela devia me achar burro por ser um dos últimos alunos a sair da sala, os outros todos já estavam de férias. Mas ela acreditou em mim e me mandou ler o tal do parágrafo com a diretora.
A diretora me mandou escolher um, entre três livros. Nenhum deles tinha letras grandes e gostosas de ver. Eram letras médias, quase pequenas, e os livros tinham muitas páginas e dentro de cada página muitos parágrafos. Eu escolhi o livro com a capa menos assustadora e ela foi quem escolheu o parágrafo que eu deveria ler. Fiquei sentado na cadeira, tremendo. Sozinho. “Onde estão meus pais?”.
Botou o livro na minha frente e apontou o parágrafo que eu deveria ler. “Eu não consigo”. Ela olhou pra mim, mas por algum motivo não estava brava: “Claro que consegue. Você só não sabe que consegue”.
“Não. Eu não consigo”. Era um parágrafo muito maior do que os que me botavam muito medo na sala de aula. E ela falou com uma voz daquelas que você pode sentar no colo dela e dormir, de tão calma: “Tem certeza que não consegue? Pelo menos tenta. Pensa bem, é sua última chance de passar de ano. Já pensou repetir tudo isso de novo? Pelo menos tenta”.
Ai eu peguei o livro, ainda sem coragem. Coloquei ele na minha frente. Ela me mandou corrigir a postura. Eu respirei fundo. Nem tinha percebido que estava chorando, minha lágrima manchou uma página do livro. “Não tem problema”, ela disse.
Eu comecei a ler, sem parar, com fluência, com gosto até. Meu medo virou uma espécie de fúria infantil, daquelas que diz: “Eu consigo sim”. E eu li. Gostaria de ter guardado o parágrafo que me rendeu a passagem para o ano seguinte, mas não lembro. E a diretora bateu palmas. Ela me disse que de todos, eu tinha sido o que conseguia ler mais rápido. E ai eu desembestei, sai pelo pátio da escola em direção aos braços dos meus pais: “Eu sei ler!”, e eu chorava.
Dai nasceu meu gosto, meu amor, meu (t)alento: pela leitura , pela escrita.

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