Conheça interpretações de possíveis significados ocultos dos famosos personagens como Zé Carioca, Clube da Luta, Calvin & Haroldo, Caverna do Dragão e Chaves.
Dizem as más línguas que Zé Carioca, um papagaio malandro, criado pelos estúdios Walt Disney era uma alegoria para a ‘indolência’ do povo brasileiro, conforme a preconceituosa visão estereotipada que o estrangeiro tinha do nosso povo. Podem haver defesas contrárias, mas uma interpretação possível é de que Zé Carioca é um personagem vagabundo, vive utilizando-se da esperteza para deixar os menos espertos para trás. Pode-se ainda argumentar que o quadrinista Luis Destuet (desenhou as primeiras tiras do Zé Carioca) tirava um “sarro subliminar” do povo brasileiro por ser argentino, país com o qual o Brasil mantém ‘saudável’ rivalidade (leia-se guerra de egos). Seja verdade ou não, a interpretação sobre o Zé Carioca, como alegoria para o brasileiro malandro e picareta não é apenas possível, como evidente e torna o personagem de certo modo profundo e fascinante, pelo oculto significado ofensivo.
Nas alegorias há sempre dois planos de interpretação: o plano literal, visível; e a representação figurada. Os elementos da representação figurada se correspondem em um sistema perfeitamente articulado com os elementos da realidade encoberta.
A bíblia é campeã em alegorias e as interpretações para as histórias bíblicas são inúmeras. Veja o caso do filho pródigo, sobre o jovem que pediu ao pai para antecipar os direitos da herança para conhecer o mundo. Ao sair de casa o filho se vê abaixo das expectativas, cuidando de porcos, bem distante do conforto do lar, e resolve voltar. No regresso o filho pródigo é rejeitado pelos irmãos por ser um gastador irresponsável, mas o pai aceita o retorno do filho pródigo contrariando todos os irmãos. Quantas histórias semelhantes existem mundo a fora? A história carrega o significado alegórico do perdão,  e da aceitação incondicional de um pai para com seu filho. Podemos adaptar a lição para situações semelhantes, utilizando-a como alegoria para episódios em nossas vidas. Há também a história de Jó, que apesar de todo o sofrimento, nunca deixou de ter Deus como o centro de sua vida, com o significado encoberto de demonstrar que a verdadeira fé é inesgotável. E a primeira alegoria bíblica, a história de Adão e Eva e a famosa maçã do pecado representando a perda da inocência através do ato sexual.
O cinema não fica por menos, e a maioria das histórias podem ser vistas como alegorias, a partir do momento em que você associa um significado a elas. Este é, em parte, o trabalho do crítico: descobrir (ou sugerir) significados profundos à obra, muitas vezes nem o autor foi capaz de perceber.
Veja este caso específico na literatura. Dez anos após o fim da segunda guerra mundial o escritor inglês William Golding publicou seu primeiro romance “O senhor das moscas”., sobre um grupo de garotos naufragados em uma ilha. Sem nenhum adulto por perto, as crianças dividem-se em dois grupos. Um grupo, ainda muito ligado à vida civilizada, tenta manter os hábitos urbanos, tentando preservar um modo de viver, digamos ‘humanista’, preservando a esperança pelo resgate. Enquanto isso, o outro grupo de crianças se adapta rapidamente à floresta e se tornam caçadores, passando a matar para viver, cedendo ao instinto animal de sobrevivência e tornando-se cada vez mais selvagens. Várias interpretações surgiram a partir da obra atribuindo significado a partir do prisma das ciências políticas e da filosofia. Em uma das possíveis alegorias atribuídas à obra, Ralph e Porquinho, os dois personagens ‘civilizados’ representariam respectivamente a Democracia e a Ciência. Ralph, com sua concha, simbolizando a ordem e o direito equânime, e Porquinho com seus óculos representando o último vínculo com o mundo urbano. Os óculos são rapidamente danificado, e permanece com a lente quebrada pelo resto da história, representando um elo incompleto, ou falho com a civilização.
Jack, o líder dos caçadores, e o coral de meninos reprimidos que se tornam selvagens representam o fascismo e as forças armadas, na intolerância de aceitar comportamentos distintos, assumindo o medo e a força bruta como forma de controle. Vários ensaios foram escritos sobre o livro, que é utilizado em muitas escolas europeias por tratar de dois aspectos inerentes à natureza humana. Goulding era um autor altamente politizado, preocupado com o rigor científico e escreveu outras obras com teor alegórico.
Vamos conhecer agora algumas analogias modernas, todas surgidas após o advento da internet e auxiliadas pela rede mundial de computadores, para se disseminarem memeticamente* pela rede. Escolhi três alegorias que particularmente me impressionaram um bocado, a primeira delas se refere à série animada Caverna do Dragão, que fez a alegria e ainda faz, de várias gerações de crianças e adolescentes. A segunda alegoria, sobre o filme Clube da Luta, nada mais faz do que intercalar duas alegorias em uma única história completa. É impressionante a habilidade do autor em construir pontes entre os personagens Jack e Tyler Durden com outra dupla de personagens famosos das histórias em quadrinhos. A última alegoria fará com que o querido personagem ‘Chaves’, e seus vizinhos: Seu Madruga, Chiquinha, Dona Florinda e Quico adquiram outra dimensão diante do seu olhar. Acreditando ou não nas interpretações alegóricas, você nunca mais verá estes filmes ou séries com os mesmos olhos.
(a memética é uma alegoria do pensamento ‘meme’ para a genética ‘gene’)
Caverna do dragão
Em 1983 começou a ser veiculada na TV a famosa série animada “Caverna do Dragão” realizada pela empresa Marvel Productions. Os seis protagonistas: Hank, Eric, Sheila, Presto, Diana e Bobby eram crianças e adolescentes norte-americanos magicamente transportados da vida comum de uma cidade americana para o reino fantástico de Dugeons & Dragons (o mesmo nome do jogo de Roleplay) sem conseguir retornar para casa. Quando a série foi descontinuada, após 27 episódios distribuídos entre três temporadas, os fãs da série ficaram insatisfeitos, pois o último episódio nunca foi produzido. Sem um fim definido, restou uma lacuna vazia na vida dos fãs inconsoláveis. Um prato cheio para a criatividade. Logo surgiu um Hoax (farsa) na internet sobre um “final alternativo”. Segundo boatos, o final da série teria sido cancelado pelo teor impróprio para o público infantil. O episódio “alternativo” interpretava a série de maneira mórbida. A versão do falso rumor empresta à história um contexto diabólico: Segundo o rumor, os personagens estão mortos desde o primeiro episódio devido ao acidente no carrinho da montanha russa no qual embarcaram. O local onde estavam presos não era simplesmente um reino fantástico, mas o inferno. O Mestre dos Magos e o Vingador são duas faces de um mesmo ser demoníaco. O unicórnio Uni, querido pelos heróis, teria sido enviado pelo Vingador para impedir os meninos de regressarem ao mundo dos vivos. Toda vez que havia uma oportunidade de retorno, os meninos desperdiçavam a chance pois teriam que abandonar Uni no universo paralelo, uma condição imposta pelo Mestre dos Magos. O Dragão Tiamat seria um anjo enviado para avisar os garotos que nunca mais poderiam voltar para casa, por isso Vingador estava sempre em guerra com o Tiamat. Assustados com a aparência monstruosa, os garotos sempre fugiam antes que o Dragão pudesse falar com eles, e assim continuavam como joguetes eternos do Mestre dos Magos, um guru que só trazia conselhos evasivos e misteriosos e de sua forma verdadeira, a de Vingador. Gary Gyrax, o produtor e criador da série repudiou com veemência esta interpretação da série para o final alternativo. O episódio final foi de fato escrito por Michael Reaves, um dos roteiristas do Caverna do Dragão. Reaves confessa ter ficado descontente com o cancelamento da série animada poucas semanas depois de ter escrito o último episódio, intitulado ‘Requiem’. “Eu fiquei muito desapontado com o cancelamento do show. Mas isso acontece na TV e acontece muito. E tudo o que você pode fazer é empacotar as coisas, pegar o dinheiro e seguir em frente”, disse. Michael explica ainda que o final foi escrito de forma que encerraria a série e caso ela fosse continuada, levaria os garotos a um outro nível. “No script o Vingador se revela filho do Mestre dos Magos e os garotos se dividem em dois grupos. Parte seguiria com Vingador, que promete leva-los  para casa e outra parte segue com o Mestre dos Magos. Foi tudo uma evolução natural das duas primeiras temporadas. Na história, apesar de se separarem, os garotos chegam a conclusão de que precisariam trabalhar juntos e acreditar uns nos outros se quiserem sobreviver”. George de Luca é um dos fãs inconsoláveis da série. Ele reuniu esforços e conseguiu alguma ajuda de pessoas de diversas partes do mundo para concluir a história de forma caseira. Ele assistia Caverna do Dragão aos 16 anos e ficou surpreso com o cancelamento: “O que me atraiu no Caverna do Dragão foi o enredo. Estas crianças foram arrancadas de suas vidas normais. Eram crianças que normalmente não se uniriam umas as outras e se tornam amigas, em parte por causa da necessidade. E eu também acredito que eles começaram a se importar uns com os outros”, disse. De fato, a série tratava acima de tudo sobre a amizade que poderia florescer mesmo num grupo de personalidades improváveis de estarem juntas em condições normais. Após iniciado o trabalho, Luca demorou um ano para animar 10 das 40 páginas do roteiro e ainda está trabalhando nisso. Mesmo havendo uma versão “oficial” para o final de “A caverna do Dragão”, o final inventado por algum fã com muito tempo livre, e as inteligentes analogias feitas por ele, tornam a versão falsa, demoniacamente mais interessante do que a oficial. Uma vírgula faltando, um final em aberto, uma interpretação dúbia são os ingredientes necessários para incendiar a imaginação de milhares de pessoas com finais alternativos e interpretações criativas muitas vezes mais poderosos do que a caneta do autor.
Clube da luta
Em 1999 o filme Clube da Luta, de David Fincher, adaptado da obra homônima de Chuck Palahniuk aterrisou nos cinemas causando forte impacto. Clube da Luta conta a história do trabalhador de uma firma de seguros, totalmente frustrado com o emprego e com a vida. Junto a um amigo imaginário, ele cria o Clube da Luta. A organização promove lutas violentas todas as noites e só permite a entrada de homens. Apesar de ser secreto, o Clube da Luta cresce exponencialmente até se tornar global e começar a promover ações revolucionárias. Instigado por características marcantes nos personagens, o crítico de cinema Galvin P. Chow estabeleceu uma analogia entre o filme Clube da Luta e uma história em quadrinhos que foi sucesso mundial desde 1985. Em Clube da Luta o protagonista é um homem apático tornando-se gradualmente revoltado com o status quo e com figuras autoritárias, tem problemas em expressar seu afeto por garotas, não gosta de agir dentro das regras estabelecidas mas se dá bem criando sua própria maneira de fazer as coisas, tem um amigo imaginário com todas as características que ele gostaria de ter, cria um clube que admite apenas garotos e nunca “ovários”, tem uma imaginação extremamente fértil e prefere ter um amigo imaginário do que um amigo real. A essa altura o leitor já deve ter fortes pistas de quem são os personagens da outra série comparada ao “Clube da Luta”. Pelas semelhanças entre os personagens, Galvin P. Show escreveu um texto estabelecendo uma ponte entre Jack e seu amigo imaginário Tyler Durden, com Calvin e seu amigo imaginário Haroldo. Calvin & Hobbes, os personagens da história em quadrinhos idealizada por Bill Waterson. Galvin P. Chow faz um trabalho centrado nos detalhes, preenchendo com verossimilhança o grande espaço entre o jovem Calvin e o adulto Jack, provando que são a mesma pessoa. O crítico acredita que o nome do personagem interpretado por Edward Norton no filme, seria Calvin. Jack é um nome retirado de revistas que o personagem de Norton encontra na casa abandonada em que passa a viver no início da história.
O início da “tese” de Galvin P. Chow estabelece a relação entre Tyler e Haroldo. Segundo o crítico, por Calvin ter sido sempre muito imaginativo e centrado em si mesmo, criou o amigo imaginário a partir da imagem de um tigre de pelúcia, o amigo perfeito para brincadeiras. O tigre Haroldo se torna uma personalidade totalmente separada, com gostos, opiniões e temperamentos distintos. Da mesma forma que Calvin tem um amigo imaginário, um mero tigre de pelúcia, Jack tem um amigo chamado Tyler. Em ambos os casos, o amigo começa como a companhia ideal e logo se torna uma pessoa tridimensional, com qualidades e defeitos. Quando Calvin faz algo errado, a culpa é sempre de Haroldo. O próprio Calvin acredita nisso. O mesmo para Jack, quando se da conta de que Tyler criou a organização subversiva. Até então, o texto de Galvin P. Chow se atém a estabelecer relações entre os personagens, mas a partir dai ele coloca a imaginação para funcionar, preenchendo as lacunas vagas entre o Calvin criança e o Calvin adulto, no caso, Jack. “Assim que Calvin conhece o ambiente hostil da maturidade, ele é obrigado a crescer e forçado a fazer uma das coisas mais difíceis para ele, desimaginar seu melhor amigo. Haroldo fica incubado, destituído ao subconsciente da mente de Calvin. E o tigre de pelúcia é esquecido, ou jogado fora. Calvin cresce, consegue um trabalho, e o pequeno garoto genial é substituído por um adulto materialista e frustrado com a vida. Haroldo vê as experiências de Calvin e as despreza como sempre desprezou a “sociedade” tradicional, que o levou a se separar de seu melhor amigo. Haroldo não se esquece da velha amizade e presta atenção especial quando Calvin pesquisa na internet sobre a fabricação de Napalm caseira para explodir o próprio apartamento. Haroldo decide libertar Calvin. Depois de crescido, Calvin não aceitaria um tigre andando e falando, Haroldo se reconstrói na forma de Tyler Durden e entra novamente na vida de Calvin determinado a mostrar tudo o que ele fez de errado”. O Clube da Luta se parece com as velhas brincadeiras de criança, adaptadas ao mundo adulto – ovários não são permitidos. Um lugar onde homens podem ser homens. Calvin fundou o G.R.O.S.S. (Get Rid Of Slimy girls) com o objetivo de excluir garotas, mas especificamente Susie Derkins. Do inglês, a palavra Gross quer dizer “bruto”, “grosseiro” e a sigla traduzida livremente seria algo como ‘Se livre das garotas magrelas’. Assim como os personagens, os clubes guardam semelhanças: São clubes fundados por um sujeito e por seu melhor amigo imaginário; ambos são clubes apenas para homens; em ambas organizações há muita lealdade entre os membros; só pode haver uma luta por vez; são organizações muito secretas. Em G.R.O.S.S. estavam as raízes do Clube da Luta.
Os outros personagens dos quadrinhos também são contemplados pelo imaginativo P. Chow. A pequena Susie Derkins no filme seria Marla Singer. Depois de uma vida diferente do que os pais planejaram para a garotinha obcecada por boas notas, a pressão pelo sucesso foi demais para ela. Susie Derkins perdeu-se no caminho. Livre dos pais e do lar suburbano, Suzie abandona o compromisso moral e muda de nome. Jack/Calvin despreza Marla/Suzie, como sempre desprezou. Tyler/Haroldo cria interesse por ela, como sempre foi entre Haroldo e Susie. O trio amoroso estabelecido é exatamente igual a quando eram crianças. No decorrer do filme, Jack encontra consolo em Marla, uma conexão que poderia ter salvado ambos, se tivesse sido feita anos atrás. Galvin P. Chow tem teoria até para os pais de Calvin e para o valentão Robert “Moe” Paulson. Os pais de Calvin tem uma participação secundária nas histórias, são agentes repressores e o carinho que demonstram é raro, desaparecem da vida do filho depois de adulto. De acordo com as menções de Jack ele não é próximo ao pai e quando questionado Tyler afirma “Eu lutaria com meu pai”. O valentão, Moe, depois dos tempos de escola, se tornou um campeão halterofilista e após ingerir esteróides desenvolveu tetas femininas, isso o leva ao grupo de ajuda mútua e ele fica chocado ao encontrar Calvin. Moe se arrepende de seus dias de Bullying, e envergonhado demais para revelar a identidade, apenas oferece as grandes tetas para que Jack possa chorar. Após todo esse esforço mental para embasar a correlação entre Calvin & Haroldo com Jack & Tyler Durden, o crítico de cinema Galvin P. Chow argumenta que Calvin aceitou a vida materialista após entrar em contato com o efeito desmoralizante da realidade e que bastaria apenas alguns anos fora do mundo ideal romantizado das tiras em quadrinhos, para que esta triste mudança de Calvin em Jack ocorresse. Outro paralelo semelhante de transformação ocorre no filme Peter Pan, o filme de 1991 (direção de Steven Spielberg). Nesta versão do filme, interpretado por Robin Williams no papel de Peter, um advogado que não recorda da própria infância. Peter esqueceu de todo o passado anarquista e livre como um dos maiores personagens do imaginário lúdico-infantil, Peter Pan. Quando o advogado descobre quem ele foi quando jovem, uma pequena revolução ocorre de dentro para fora e ele literalmente reaprende a voar.
É questionável que a relação entre Calvin/Jack e Haroldo/Tyler, interpretada por Galvin P. Chow tenha sido planejada pelo escritor Chuck Palahniuk, ou pelo diretor David Fincher. Mas P. Chow tem a razão embasada quando afirma que Clube da Luta poderia ter sido a continuação madura de Calvin & Haroldo. Por mais discutível que seja, o complexo e exaustivo trabalho mental de P. Chow é espetacular e tem grande mérito em fundir duas alegorias sobre a liberdade anárquica em uma única história, adicionando coesão a uma grande obra do folclore cinematográfico americano.
Chaves 
O último e mais interessante caso de interpretação extrema de um seriado famoso foi escrito pelo professor de história Ademir Luiz. Utilizando-se de conhecimentos de demonografia, criou uma pertinente analogia com um dos seriados mais amados do Brasil, exibido por anos no SBT. “Chaves” do dramaturgo mexicano, Roberto Gómez Bolaños. Ademir comparou a querida ‘Vila” do Chaves e seus vizinhos, ao inferno, isso mesmo, o mar de fogo e enxofre habitado por demônios. O professor, Ademir Luiz, traz uma série de indícios que provam essa correlação. O texto escrito por Ademir explodiu na internet causando as mais diversas reações do público. São reações naturais diante da ousadia da interpretação e ocorrem para qualquer violação àqueles personagens e estórias que adquirem o status de puros e sagrados no imaginário popular. O mesmo tipo de reação devastadora por parte do público ocorreu quando Larry Flynt, o empresário detentor da marca de revistas pornográfica ‘Hustler’, decidiu desafiar a América do Norte criando pornografia a partir de personagens simbólicos como Papai Noel e Branca de Neve e os sete anões.
Roberto Bolaños é respeitado como gênio do humor no Brasil, ele manteve as séries Chaves e Chapolin em audiência constante na televisão brasileira por anos e anos, criando um público cativo de crianças que cresceram assistindo suas comédias muitoas vezes inspiradas em outro gênio do passado, Charles Chaplin. No México, Bolaños é conhecido como Chespirito, ou “O Pequeno Shakespeare”, pelo seu talento como dramaturgo. Um criador sutil, soube utilizar-se dos estereótipos humanos para descrever uma vila que poderia representar o mundo. Entretanto, o historiador Ademir Luiz acredita que a genialidade de Bolaños vai além da criação de um humor singelo, ele acredita que a obra de Bolaños pode ser interpretada a partir de um viés profundamente intelectual e sombrio. “Os pecadores amaldiçoados de Roberto Bolaños são recriações contemporâneas perturbadoras”, afirma. Para  Ademir, a Vila do Chaves é a representação do próprio inferno, disfarçado de um inocente cortiço mexicano, a começar pelo nome. O nome original da série, em espanhol é “El Chavo Del Ocho”, traduzindo do espanhol “O moleque do oito”. O inferno é o lugar do sofrimento eterno, a moradia final dos pecadores. Seria o número oito, uma alegoria para o oito deitado, símbolo da eternidade? Parece risível, mas acompanhe a argumentação. A vila seria um pedaço do inferno especialmente preparado para receber um grupo de pecadores condenados para se suportem por toda a eternidade. A comicidade tira o tom sombrio desse inferno, mas o sofrimento a qual os pecadores da vila estão destinados é eternamente insuportável: “Chiquinha chuta a canela de Quico e faz seu pai pensar que o menino foi o agressor, enervado Seu Madruga belisca Quico, que chama Dona Florinda, que acerta um tapa no vizinho gentalha, que descarrega a raiva no Moleque Chaves, que enraivecido atinge o Seu Barriga quando ele chega para cobrar o aluguel. Enquanto isso, o professor Girafales, queimando de desejo por Dona Florinda, bebe café, com um buquê de rosas no colo, sem desconfiar a causa, motivo, razão ou circunstância de tanta repetição”, explica Ademir. Esta representação infernal do cotidiano de uma vila repete-se incessantemente, com pequenas variações. Risível para quem observa, mas torturante para os personagens que a vivenciam diariamente. Há saída para uma rua estreita, fora do espaço confinado, por onde há almas passantes, mas não se vê nada além do pequeno espaço onde estão os personagens. Há sempre muros ao fundo, cercando tudo. O episódio de Acapulco, explica Ademir, seria excessão à regra. Um respiro do inferno, um contraponto claro, aberto e livre de limites de todos os dias no cotidiano infernal da Vila. Importante lembrar que para chegarem a Acapulco, os personagens foram obrigados a ultrapassar provações de resquícios de virtude, no episódio anterior. As provações mostram o que resta de bondoso nas personagens, e gera momentos dignos de rara comoção e lágrimas, pelo escape momentâneo, do sofrimento eterno que é estar na vila. Cada personagem representa os pecados pelos quais foram condenados em vida. Chaves é o glutão, sempre esfomeado por um sanduíche de presunto, inimigo das autoridades, apelida o Professor de Mestre Linguiça. Chega a praticar o roubo dos churros preparados por Dona Florinda, levando Seu Madruga a sofrer as consequências calado. Seu madruga “tem muito trabalho para não trabalhar”, é o preguiçoso da Vila. Mais uma vez a eternidade é representada pelos quatorze meses de aluguel, que nunca viram quinze. Seu Barriga, avarento e ganancioso, cobra o aluguel quase todos os dias. É castigado toda a vez que chega a vila pelas “boladas” do moleque Chaves, sempre “sem querer querendo”. O menino rico da Vila, o invejoso Quico, cobiça a alegria simples das brincadeiras dos amigos, trazendo seus brinquedos caros, com os quais nunca se contenta. Trata de fazer inveja em Chaves até na fome, quando tem alguma glutonice para maltratá-lo. Quico sofre castigos do Seu Madruga, tratando de revidar os ataques com a vingança através de sua mãe. Chiquinha é a raiva. Castiga e se aproveita da “ingenuidade” dos outros. Chuta os pés, quebra os brinquedos e ofende. Mas quando precisa enfrentar a situação de frente ela chora covardemente. Dona Florinda e Professor Girafales são os libertinos, os luxuriosos condenados à castidade. Apesar do charuto fálico do Professor Girafalles, a paixão dos dois nunca é consumada. O professor é um impotente e Dona Florinda frígida. Além de frígida, nunca está bela o suficiente para receber o amante, e sente-se incapaz de despertar desejo. O professor a presenteia com um bouquet de flores, em compensação ela retribui com um café. O coito nunca chega às vias de fato, mas o ritual se repete infinitamente. “O gênio de Bolaños teve a sutileza de convidar uma ex-miss, a espanhola Angelines Fernández, para interpretar a personagem Clotildes, a Bruxa do 71”, aquela que sofre pelo pecado da vaidade. Uma velha “coroca” e ressentida, por não ser capaz de despertar sequer o amor de Seu Madruga, um homem com aspecto cadavérico, não a toa, o primeiro ator da série a morrer na vida real. O sofrimento eterno na Vila aparentemente não desperta os personagens para sua condição. Jaiminho, o carteiro, surge sempre fatigado após um esforço tremendo para ultrapassar a umbra que divide o mundo dos mortos. Ele traz notícias, como um médium do mundo dos vivos. Tangamandápio, a terra natal, descrita por Jaiminho, seria apenas um nome para o mundo dos vivos. As cartas são recados psicografados e a bicicleta que ele nunca larga (apesar de não saber andar) é o objeto “encantado” para encontrar o caminho de volta. Não bastasse esta cruel análise, capaz de quebrar o encanto pela pureza dos personagens da vila, o historiador Ademir Luiz vai além. Citando bibliografia sobre classificação de demônios, estabelece que cada um dos sete pecados capitais possui um patrono no inferno visitando a vila constantemente. Os demônios surgem camuflados em aparências inocentes para perpetuar o ciclo de sofrimento. Lúcifer, nome pelo qual satanás é conhecido, é o demônio da vaidade; Asmodeu, da luxúria; Belzebu, da gula; Mammon, da ganância; Belphegor, a preguiça; Azazel, a ira; e Leviatã, a inveja. O gato “Satanás” ajuda a difundir o boato de que a vaidosa Clotilde, não passa de uma bruxa. Há também a dupla de mulheres que surgem com o mesmo encanto das sereias para os navegantes: Paty e sua bela tia Glória, são Belzebu e Belphegor “metamorfoseados em súcubus”, os demônios sexuais femininos. Elas despertam os instintos sexuais do moleque e de Seu Madruga. Íncubo, o demônio sexual masculino, é representado por um galã que visita a vila, e prejudica a relação fria entre o casal de luxuriosos castrados, Florinda e Girafales. Nhonho é o demônio da avareza, Mammon, sempre compelindo Seu barriga a gastar dinheiro. A doce e boba menina Popis, é Azazel e está ali para gerar ódio em Chiquinha. Personagens menos relevantes na vila são entidades menores, com o único objetivo de criar a aparente normalidade. “É comico, apesar de trágico”, conclui o historiador Ademir Luiz.

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